Durante dois anos, eu acendi meu fogão com fósforo.
Não era preguiça, não era negligência. Era convicção. O acendedor parecia quebrado — clicava sem faísca — então eu me acostumei com a gambiarra. Paguei por um orçamento que nunca cheguei a executar. Outras prioridades apareceram. A vida continuou. O fósforo resolveu. E eu fui ficando tão acostumada com o desvio que esqueci que havia um botão ali.
Até o dia em que esbarrei, sem querer, no acendedor. E o fogão acendeu. Como sempre tinha acendido.
Fiquei parada na frente do fogão por um tempo. Não de raiva — de espanto. Dois anos. Dois anos de fósforo, de orçamento, de "quando eu tiver dinheiro conserto isso". E o problema nunca tinha existido. O sistema sempre funcionou. Só que eu tinha criado uma narrativa tão sólida sobre a quebra que nunca mais tentei o botão.
"Você não precisa atrair o que quer. Você precisa parar de desviar do que já está disponível."
Essa história virou um encontro inteiro no Clube Vida Real. Porque ela não é sobre fogão. É sobre tudo que você acredita estar quebrado, travado, indisponível — e que talvez esteja esperando só que você tente o botão de novo.
A armadilha do merecimento
Tem uma crença que eu vejo repetir na vida de quase todas as mulheres que acompanho. Ela é sutil, mas destrói tudo por dentro. É a crença de que ter é uma recompensa.
Aprendemos desde cedo: se eu trabalhar muito, posso ter. Se eu for boa o suficiente, vou receber. Se eu me esforçar, se eu merecer, então sim — aí está liberado.
O problema é que enquanto o ter for recompensa, você nunca simplesmente tem. Você conquista. E conquista esgota. Você nunca descansa no que tem, porque a qualquer momento o critério pode mudar e você pode "perder o mérito".
O ter como transação
"Se eu trabalhar muito, posso ter." O ter vira recompensa pelo esforço. Você nunca recebe — você ganha. E ganhar exige performance permanente. Quando você para de performar, o medo é: será que ainda mereço?
O receber como resultado de aprovação
"Se eu for boa o suficiente, vou receber." O receber vira resultado de aprovação externa. Você depende que alguém — a vida, Deus, o universo, o mercado — julgue que você passou no teste. E esse tribunal é sempre invisível, arbitrário e implacável.
O ciclo que não fecha
Enquanto você estiver dentro dessa lógica, o que você quer nunca vai parecer disponível. Vai parecer que ainda falta um pouco mais de esforço, um pouco mais de merecer. O fogão vai parecer quebrado — mesmo funcionando.
O que aconteceu de verdade com o fogão
Quando eu olhei de volta para a história do meu fogão, percebi que ela tinha quatro movimentos. E que esses quatro movimentos descrevem exatamente o que acontece quando algo que você quer chega de um jeito que você não calculou:
Nomear — o pedido estava claro
O fogão estava na minha lista de reparos. Não era um desejo vago — era algo nomeado. Eu sabia o que queria. O pedido existia. Não é necessário saber como vai se resolver, mas é necessário saber o que você quer.
Soltar o como — sem cancelar o desejo
Larguei o orçamento. Larguei o prazo. Mas não cancelei o desejo de ter o fogão funcionando. Existe uma diferença enorme entre largar o como e desistir do que quer. Largar o como é confiar que existe uma solução além da que você enxerga. Desistir é fechar o pedido.
Viver presente — sem esperar
Continuei cozinhando. Fiz jantares, aqueeci o café, preparei receitas. Não fiquei parada esperando o fogão "se consertar". Vivi com o que tinha — sem ansiedade sobre o que faltava. Essa presença não é resignação. É a postura que cria espaço para o sinal aparecer.
Reconhecer — responder ao sinal quando ele aparece
Quando a faísca saiu, eu poderia ter ignorado. "Deve ter sido acidental." Mas eu testei. Tentei de novo. Confirmo que funcionava. Reconhecer o sinal quando ele aparece é tão importante quanto nomear o que você quer. O contato acidental revelou a lei — mas só porque eu prestei atenção.
A demanda genuína
Tem uma diferença entre querer, precisar e demandar — e essa diferença muda tudo.
Quando você quer algo carregando a certeza de que não vai vir, o pedido já traz a resposta negativa dentro. Quando você "precisa urgente", a urgência é ansiedade disfarçada de demanda — e ansiedade fecha, não abre.
A demanda genuína é diferente. É nomear com clareza, soltar o como, e viver presente. É um contato limpo. Sem desespero, sem barganha, sem performance de merecimento.
"O sistema não responde ao esforço. O sistema responde ao contato limpo."
Isso não é filosofia vaga. É o que aconteceu com o meu fogão. E é o que tenho observado, ao longo de quinze anos de clínica, acontecer com as mulheres que param de gerenciar o como e começam a confiar no processo.
A âncora: encontre o seu fogão
Toda vez que acendo o fogão hoje, o corpo lembra. Não preciso de um esforço intelectual para lembrar que o sistema funciona. O gesto já carrega a prova — e ativa, de forma automática, essa memória no sistema nervoso.
Isso é o que chamo de âncora. Um objeto cotidiano que carrega a prova viva de que o que você quer está disponível.
Para mim, é o fogão. Para você, pode ser qualquer coisa: a xícara de chá que você sempre encontra quando precisa, a amizade que surgiu no momento exato, a oportunidade que apareceu quando você tinha parado de procurar.
Quando você encontrar o seu fogão, a fé para de depender da memória intelectual — e passa a viver no gesto. Isso é muito mais robusto. Muito mais difícil de perder nos dias difíceis.
O botão sempre esteve lá
Termino com a pergunta que ficou do encontro do Clube:
O que você ainda está acendendo com fósforo?
Que botão você parou de apertar porque decidiu que estava quebrado? Que oportunidade você deixou de testar porque criou uma narrativa sobre o motivo pelo qual não ia funcionar? Que relacionamento, projeto, sonho ou possibilidade você passou a contornar — com uma gambiarra que resolve, mas nunca satisfaz?
O sistema não está quebrado. Você está desviando.
E desvios podem ser desfeitos. A qualquer momento. Às vezes, tudo que precisa é de um esbarrão — ou da coragem de tentar o botão de novo.
Esse foi um dos encontros
do Clube Vida Real.
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Fisioterapeuta especialista em saúde integrativa, terapeuta sistêmica e consteladora familiar. Há mais de 15 anos acompanho mulheres que chegam com dores no corpo e descobrem que essas dores têm uma história muito mais profunda. Acredito que a cura começa quando a gente para de tratar o sintoma e começa a ouvir o que ele está dizendo.
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